sábado, 22 de agosto de 2009

O templo de Jerusalém como expressão material da fé hebraica



Observando a história do povo hebreu após o reino ter sido dividido em Judá e Israel, é possível verificar que a fé em Deus permaneceu mais viva no reino do sul (Judá) que no do norte (Israel). Porque essa diferença na espiritualidade aconteceu? Existiriam fatores que teriam influenciado nisso? Antes de tentar responder estas questões, façamos uma breve análise dos reis de Judá e de Israel.
Dos vinte reis que reinaram em Judá desde a divisão do reino até o cativeiro babilônico, pelo menos seis podemos destacar pela sua reverência ao Senhor. Asa, Jeosafá, Joás, Jotão, Ezequias e Josias não foram apenas grandes estadistas, mas verdadeiros guerreiros espirituais. Eles realizaram reformas, reconstruíram partes do templo, destruíram altares idólatras e restauraram o culto ao Senhor. Graças aos seus esforços, a ira do Senhor se desviou de Judá por um bom tempo.
Já no reino do norte a situação era mais crítica do ponto de vista espiritual. Surgido a partir de um movimento separatista, dez das doze tribos do até então reino unido de Israel se rebelaram contra o rei Roboão e formaram um novo reino, com capital em Samaria. Rebelião esta que já havia sido prevista por Deus, devido aos pecados de Salomão, pai de Roboão (1Rs 11.11-13). Desde então, dezenove reis governaram em Israel, mas nenhum “fez o que era bom aos olhos do Senhor”. O único que chegou mais próximo disso talvez tenha sido Jeú, por extirpar de Israel, no início de seu reinado, o culto ao deus Baal. Mas ainda assim a Bíblia diz que ele não serviu a Deus de todo o seu coração (2Rs 10.31).
Tendo em vista este retrato dos reis de Judá e Israel, é possível afirmar que os governantes exerciam influência poderosa sobre as nações, do ponto de vista espiritual. Isso, sem dúvida, ajuda a explicar a "temperatura" espiritual de cada reino, naqueles tempos. Mas, além disso, outro fator merece ser levado em conta: a localização geográfica do templo do Senhor.
Para o povo hebraico, o templo representava a vitalidade espiritual da nação. Fato é , que desde a época dos patriarcas, já havia a preocupação de se construir pelo menos um templo provisório - o tabernáculo - para que ali Deus pudesse se fazer presente. Se essa presença era real ou simbólica, não é o que quero questionar aqui. O que levanto aqui é que o templo expressava a materialização da fé hebraica. Para muitos hebreus, o templo era até mesmo motivo de orgulho e ostentação, como observamos em Mc 13.1. Considerando que ele ficava em Jerusalém, essa cidade naturalmente se tornou o que a geógrafa Zeny Rosendall chama de hierópolis, ou seja, o centro da religião hebraica, para onde convergiam todas as peregrinações e onde eram celebradas as principais festas religiosas. Como Jerusalém era também a sede do reino do sul, o rei de Judá podia sentir o pulsar da fé em Deus e sua importância na vida do povo com muito mais intensidade que o rei de Israel. Sem contar que o status de centro da fé concedido a Jerusálem pode ter provocado inveja e hostilidade dos habitantes do reino do norte, como podemos constatar em 2Cr 30. Isto pois, desde que os reinos do norte e do sul foram divividos, a porção do norte perdeu sua maior referência nacional para a adoração a Deus, que se encontrava materializada no templo do reino vizinho (Judá).   
Porém aqui vale duas últimas observações. Não podemos justificar que o reino do norte deixou de servir ao Senhor porque queriam servir seus próprios deuses, que refletissem melhor a identidade do povo do novo reino, pois eles deixaram o Deus de seus antepassados para importar deuses estrangeiros. Também não podemos justificar que o povo de Israel perdeu sua fé em Deus porque o Senhor se esqueceu do reino do norte a partir do momento em que Israel foi dividido em Judá e Israel. Os livros hstóricos da Bíblia são testemunhas - a passagem de 2Cr30 é só um exemplo - de que Israel nunca deixou de contar com homens de Deus e profetas que os exortassem. Portanto, o fato de não ser a "capital da fé em Deus" naqueles tempos de modo nenhum justifica a apostasia do reino do norte contra o Senhor, ainda que ajude a entender porque Samaria e seus reis menosprezaram mais a Deus que Judá.
EF

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